Deepfake: Quando Até a Sua Avó Pode Encenar ao Lado de Tom Cruise

Quem nunca se deparou com um vídeo de Kiko, Chaves e Chiquinha cantando "Evidências" do Chitãozinho e Xororó, ou então, com o personagem mais maluco dos sitcoms se deliciando com um prato de macarrão?
Tarcísio Feletti
06 de Janeiro de 2025
5 min de leitura

Deepfake: Quando Até a Sua Avó Pode Encenar ao Lado de Tom Cruise

Quem nunca se deparou com um vídeo de Kiko, Chaves e Chiquinha cantando "Evidências" do Chitãozinho e Xororó, ou então, com o personagem mais maluco dos sitcoms se deliciando com um prato de macarrão? Pois é, a cada dia, os vídeos e áudios gerados por Inteligência Artificial (IA) se popularizam nas redes sociais, atingindo mais pessoas. Esses conteúdos são geralmente divertidos, causando boas risadas, até que, de repente, a tecnologia de deepfake entra em cena com um tom mais sombrio. Um exemplo recente foi o vídeo falso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, onde ele supostamente divulgava uma fraude envolvendo resgates de dinheiro em um site malicioso. Esse vídeo, que ganhou visibilidade na mídia, é apenas a ponta do iceberg. Milhares de vídeos e áudios gerados por IA circulam constantemente pela internet, muitos dos quais têm o objetivo de manipular e enganar pessoas, especialmente aquelas que não estão cientes dos riscos dessa tecnologia.

Entendendo o Inimigo: O Que São Deepfakes?

O termo "deepfake" começou a ganhar notoriedade em 2017, quando um usuário do Reddit postou um vídeo pornográfico alterado digitalmente, utilizando imagens de celebridades. Esse vídeo ficou conhecido como deepfake, uma combinação de "deep learning" (aprendizado profundo) e "fake" (falso), e passou a ser utilizado para descrever qualquer conteúdo visual ou de áudio alterado por meio dessa tecnologia.

O deepfake é gerado por algoritmos de IA que usam redes neurais artificiais, inspiradas no cérebro humano, para mapear e identificar movimentos, padrões faciais, gestos e até timbres de voz de uma pessoa. Com essas informações, a IA é capaz de gerar imagens, vídeos e áudios de pessoas realizando ações ou dizendo coisas que nunca foram gravadas, criando representações altamente realistas de situações que nunca aconteceram.

Para quem já experimentou o filtro de troca de rostos no Instagram ou no Snapchat, a ideia de um deepfake pode parecer apenas uma versão mais avançada e "divertida" dessas tecnologias. Mas imagine o Leonardo DiCaprio substituindo Kate Winslet no papel de Rose em Titanic. Quem sabe, assim, ele não fosse salvo naquela famosa porta (desculpem pelo spoiler!).

Figura 1: Ilustração de uma ferramenta de troca de rostos com IA (Fonte: Tecnoblog)

De Filtro Divertido a Perigo Real: A Evolução dos Deepfakes

No início, as deepfakes eram simples e usadas principalmente para entretenimento. Ferramentas como o filtro de troca de rostos se popularizaram no Snapchat e foram rapidamente adotadas por outras redes sociais, como Instagram e TikTok. No entanto, com o passar dos anos, a tecnologia se tornou mais acessível e sofisticada. Atualmente, qualquer pessoa com conhecimentos básicos de edição pode criar deepfakes utilizando softwares de código aberto. Esse aprimoramento contínuo trouxe um grande desafio: é cada vez mais difícil distinguir um vídeo real de um vídeo gerado por IA.

Em um intervalo de apenas um ano, a qualidade dos deepfakes evoluiu a ponto de exigir uma análise minuciosa para perceber que determinado conteúdo não é real. A diferença entre um vídeo de deepfake de 2017 e um de 2023 é assustadora. O mapeamento de feições e movimentos faciais avançou de maneira exponencial, tornando os vídeos praticamente indetectáveis a olho nu.

Figura 2: Comparação entre vídeos gerados por IA. (Fonte: Monet)

O Impacto Real das Deepfakes: Como Elas Afetam a Sociedade

Embora as deepfakes possam ser usadas para fins de entretenimento, como memes e paródias, elas também têm sido exploradas de forma maliciosa e perigosa. Alguns exemplos de como as deepfakes estão sendo utilizadas de maneira prejudicial incluem:

  • Fake News: Deepfakes podem ser usados para criar vídeos falsos de políticos ou figuras públicas, espalhando desinformação e manipulando a opinião pública.
  • Fraudes Financeiras: Vídeos falsificados de autoridades ou executivos podem ser usados para induzir pessoas a cair em golpes financeiros ou fraudes.
  • Conteúdos Impróprios: A tecnologia também tem sido usada para criar vídeos de pornografia não consensual, um crime grave que afeta diretamente as vítimas e suas reputações.

Recentemente, o governo brasileiro se viu diante de um vídeo de deepfake que envolvia o presidente Lula, divulgando um site malicioso. Esse vídeo foi desmentido pela mídia, mas a realidade é que outros vídeos falsificados estão circulando pela internet sem tanta visibilidade. Além disso, a CNN noticiou que criminosos russos estavam utilizando deepfakes para influenciar eleições na União Europeia. Na Austrália, o governo investiga o uso de deepfakes para criar pornografia infantil, o que representa uma violação gravíssima dos direitos humanos.

Esses são apenas alguns exemplos de como a tecnologia de deepfake pode ser usada de maneira destrutiva. E o pior: muitos desses conteúdos chegam até nós por meio de grupos de WhatsApp ou em redes sociais, sendo compartilhados sem que a maioria das pessoas tenha a mínima ideia de que estão lidando com uma fraude digital.

Como Detectar e Proteger-se de Deepfakes

Conhecer a tecnologia é o primeiro passo para se proteger contra as deepfakes. Embora identificar um deepfake com precisão possa ser difícil, existem alguns sinais que podem indicar que o vídeo ou áudio não é autêntico. A seguir, apresentamos algumas dicas para ajudar a identificar um deepfake:

  1. Gestos e Movimentos Faciais: Observe os gestos e a expressão facial da pessoa no vídeo. Se os movimentos parecerem robóticos, artificiais ou pouco expressivos, isso pode indicar que o vídeo é falso.
  2. Dicção e Falas Assíncronas: Quando se trata de áudio, preste atenção se a fala soa natural. Caso a voz não esteja sincronizada com os movimentos dos lábios ou com o contexto, é possível que seja um deepfake.
  3. Iluminação e Sombras: A iluminação é um dos aspectos mais difíceis de se reproduzir com perfeição em deepfakes. Verifique se a iluminação no vídeo parece incoerente ou se há variações de tons de pele que não fazem sentido.
  4. Deformações Faciais: Em vídeos de baixa qualidade, podem surgir distorções nos rostos ou nas expressões faciais. Se você notar mudanças repentinas e estranhas na face da pessoa, pode estar diante de um deepfake.

Para aqueles que acham essas verificações muito complexas, existem soluções mais simples. O Google, por exemplo, criou uma base de dados com mais de 3.000 vídeos de deepfake para treinar IAs a identificar conteúdos falsificados. A ferramenta Google Lens, por exemplo, pode ser usada para buscar imagens e vídeos na web e descobrir se o conteúdo já foi discutido em fóruns ou sites de verificação. Isso pode ajudar a identificar se um vídeo foi amplamente desmentido.

A Defesa Contra Deepfakes: Como nos Proteger

A melhor defesa contra as deepfakes é a conscientização. É importante sempre duvidar de qualquer vídeo ou áudio que surja em grupos de WhatsApp ou redes sociais, especialmente se ele parecer alarmante ou sensacionalista. Em tempos de fake news, sempre busque fontes confiáveis para verificar as informações antes de compartilhá-las.

Além disso, plataformas como Fato ou Fake, do G1, e Boatos.org, são sites de checagem de fatos que podem ser consultados para validar informações suspeitas. Outra medida de segurança é adotar práticas de verificação, como olhar o contexto em que o vídeo foi postado, examinar detalhes como iluminação e movimentos faciais e utilizar ferramentas como o Google Lens para buscar informações relacionadas ao conteúdo.

Conclusão: Conhecimento é Poder

Em um mundo cada vez mais digital, onde as tecnologias avançam em uma velocidade impressionante, as deepfakes representam um desafio sério. Elas podem ser usadas para o bem, como em memes e avatares, mas também podem ser usadas para prejudicar, enganar e manipular. Portanto, nossa principal defesa contra esse novo tipo de ameaça é o conhecimento.

É fundamental que todos, não apenas especialistas em tecnologia, se conscientizem sobre o que são deepfakes, como funcionam e como podemos identificá-las. Ao adotar uma postura crítica e investigativa, podemos reduzir o impacto negativo dessa tecnologia e evitar cair em fraudes ou desinformação. Em tempos de incertezas digitais, "conhecer o inimigo" e proteger-se é a chave para garantir nossa segurança no mundo online.

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